Vocês têm que dar um vôo em Tacima" inúmeras vezes o Thalis, piloto de Natal-RN, repetiu esta frase para mim nos últimos anos e desta vez ao chegar a Natal vindo do Xceará, com acompanhado de um time de aventureiros de primeira linha, Betinho Top Tape, Dan Engelhart, Manoelzinho e o alemão Hans Bausenwein, não foi muito diferente:
-"Antes de irem para Pernambuco vocês tem de ir conhecer Tacima é a maior Farofa!". E certamente valeu a pena incluir mais esta aventura em nosso roteiro primeiro nós fomos para a badalada "Praia da Pipa" onde pode-se bater um lift nas falésias, pegar onda ou simplesmente curtir uma água antes de partir para o tórrido sertão. Após uma tarde completíssima que além de um vôo incluiu ainda um surf session até escurecer, e decidimos partir para "Araruna-PB" a fim de voar de Tacima no dia seguinte. Tudo certo galera reunida e quando finalmente os três carros começavam a partir fomos interceptados e intimados a comparecer ao "Hotel Marinas" para ocupar 4 chalés que já se encontravam a nossa disposição pois no dia seguinte haveria uma filmagem da Globo etc. . Com uma intimada destas ficamos mais um dia neste paraíso fizemos mais um "Lift" nas falésias e a noite partimos para Araruna.
Depois de uma noite numa simplerrima pensão em Araruna, com direito a mosquitada e tudo mais, o Thalis orgulhosamente apresentou a decolagem de Tacima custamos um pouco a montar pois o dia havia amanhecido fechado Parecia até que ia chover e ninguém tava levando muita fé no vôo. Aos poucos foi melhorando até que quando a gente se tocou a condição já estava mega! Analisamos as opções de rota no mapa e decidimos forçar o vento no início afim seguirmos a BR para evitar a "Terra de Marlboro" ficando junto ao asfalto afim de podermos seguir viagem para Pernambuco logo na seqüência, combinamos que se voássemos 50km já tava legal afinal era só um vôo de reconhecimento.
Assim que decolamos já percebemos que as coisas estavam um pouco diferentes do que imaginávamos pois o vento estava tão nordeste, ou seja de través na cordilheira, que apesar de estar soprando com quase 30km/h estava critico de ficar no "Lift" e as thérmicas que vinham um pouco quebradas dado a baixa altura da cordilheira, +/-200m, que após derivar com uma que acabei perdendo voltei tão baixo para a cordilheira que comecei a merrecar com pouco tempo para decidir optei por um bordo num morrinho de uns 80m na direta que estava na direita um pouco mais perpendicular ao vento e ai se não desse era rezar pra chegar no começo do imenso pouso ao pé da cordilheira.
Por sorte peguei um coice que me jogou uns 200m pra cima em questão de segundos dali foi jogar mais uma vez na rampa engatar em outra poderosa thermal que apesar de apertadíssima se apresentou constante o suficiente para eu me deixar derivar com ela para um estreito vale a direita atrás da rampa ao me verem engatados o Dan e o Betinho já chegaram junto e fomos todos arremessados para a base da nuvem que ainda se apresentava um pouco baixa, 1600m do mar, considerando que o planalto que seguia por detrás da rampa tinha seus 500m do mar.
Avaliando o vento e a condição, excelente, mas com as bases ainda baixas optei por jogar de cauda direto para trás pois seria impossível forçar o vento como tínhamos planejado os outros concordaram e assim para desespero da galera do resgate jogamos direto para o puro sertão sem mesmo conhecer a região, pois quando estudei o mapa memorizei a rota combinada.
E assim seguimos Betinho, Thalis Dan e eu todos juntos rumo ao nada mas com a certeza de que sempre haveria uma thérmica forte a frente e que seguindo reto iríamos chegar a algum lugar civilizado....e chegamos após 50km de roubada vimos uma cidade e um asfalto perpendicular ao nosso vôo e de quebra pela primeira vez estávamos enfrentando uma sombra enorme que prejudicava a condição.
Cruzamos a cidade e seu asfalto para, de novo, seguir para o meio da caatinga só que desta vez estávamos ficando baixos lá na frente eu via, no sol, um arado vermelho junto a algumas casas e sabia que se não conseguíssemos subir pelo menos não ficaríamos com sede no sertão.
Chegamos lá muito baixos, o Dan chegou a abrir o cinto para pousar, mas a forte descendente já antecipava o que estava por vir pegamos um canhão e num belo trabalho de equipe fomos cercando ela até que mais uma vez estávamos na nuvem.
Dalí, seguimos por mais uns 40km de roubada ignoramos mais um asfalto perpendicular pois estávamos absolutamente engatados na condição. Lá pelo km120 eu e Dan fomos baixo mais uma vez em um lugar onde não havia nem estrada de terra principal sendo assistidos de camarote pelos outros, que se deliciavam num Cloudbase encima da gente, mas a certeza de subir era tão grande que nem pensei que poderíamos pousar. Dito e feito, pegamos um canhão de 7 que nos levou sem demora para o "camarote" junto com o resto da galera. Logo a frente pegamos, finalmente, um asfalto que seguia nossa rota.
Neste momento infelizmente o grupo se separou pois ao cruzar um longo buraco azul, com pouca ascendência, o Dan foi obrigado a pousarno km 145 e o Thalis e o Betinho se atrasaram pois haviam saído um pouco mais baixo da última thérmica cujo cloudbase já se apresentava a 2500m acima do nível do mar. Passei as coordenadas do Dan pelo rádio para os resgates que aquela altura se encontrava uns 100km pra trás. Vivendo sua própria aventura lutando para avançar nas trilhas do sertão Paraibano. Após mais uns 30km o asfalto desviava-se para a esquerda enquanto um majestoso cloudstreet se encarregava de sombrear uma boa parte da região.
Passei minhas coordenadas e me despedi do asfalto, pela 3a vez no dia torcendo para achar alguma ascendência pois já eram 15:30 e eu percebia que o auge da condição já havia passado mas ainda assim eu acreditava ser possível ficar no ar mais umas duas horas.
Enquanto seguia roubada a dentro ouvia no rádio o Thalis tentando convencer o Betinho a seguir o asfalto ao invés de me seguir. Depois de puxar os dois pra roubada comecei a ficar preocupado pois apesar de ainda estar a meia altura não havia pego nenhum bafinho de thérmica e pra frente tinha uma serrinha para cruzar e cidade ou asfalto que é bom nada!! Decidi mais uma vez que esticaria para o primeiro morrinho da serra e se não desse era voltar no contra-vento para a primeira clareira, pousar e me preparar pra dormir no mato..... cheguei a ensaiar um lift no morrinho quando uma fraquinha de meio metro apareceu derivando pra dentro da montanha me carregando por uns 25km na derivada para falhar a uns 1800m.
Com menos sorte que eu o Thalis e o Betinho cruzaram a serra e pousaram em seguida lá pelos 180km. Eu que já estava satisfeito a 1800m beirando os 200km decidi esticar o planeio, cruzando o quarto asfalto, para pousar lá pelos 210km. Mal eu havia começado peguei uma daquelas thérmicas inesquecíveis subindo a uns +5 m/s lisos, constantes e num diâmetro que se poderia voar em 8 fui a 3000m em uma bela nuvem preta de final de tarde certo que esta era a ultima. Durante o meu planeio eu avistei uma cidade que estava à esquerda quase contra-vento que a esta altura era um norte com intensidade de 20km/h.
Amarradão com o vôo que tinha feito decidi fechar com chave de ouro, planejei forçar para a tal cidade e pousar o mais perto possível da cidade, no caminho duas bufinhas me presentearam com a altura necessária para chegar até a cidade, que depois vim a saber era Tabira em Pernambuco. Enquanto aproximava para pouso via as crianças saindo de todos os lados e correndo para o pouso como formigas.
Foi um choque, após 5 horas sozinho e concentrado aqui estava eu cercado de olhares e perguntas sem nem poder me mexer. Após o interrogatório fui liberado para achar um hotel, tomar banho, jantar e esperar o resgate que chegou às 22:00h após 9h e 350km de sertão.